segunda-feira, 29 de novembro de 2010

O menino

Companheiros seguros de jornada,
Aqueles que se acrescentam sempre e nunca se deixam cair,

Este ano, tal como o Joco, passei a ser menos pagã.
A partir de agora sou devota do meu menino.
Sei que esta é uma paixão segura e perene, não sujeita a alterações de humor, deslocações logísticas, discussões políticas, gestões financeiras, mudanças climáticas. É aquele fio condutor de quem se afasta para deixar lugar àqueles que vêm e merecem ocupá-lo. É a relação inexplicável que uma avó tem como o futuro, usando como intermediário o seu neto. Algo ainda mais telúrico e metafísico do que a relação da terra com seus frutos ou do céu com seus pássaros.
Ainda assim, vejo distintamente o pai natal, daqui deste lugar onde me sento. Ele deixou de se vestir de vermelho. É um velho respeitável, sem barriga, mais alto, de cabelos mais sedosos, parece ser dono de muitos saberes. Cheira a lareira e a mantas confortáveis que nos afagam de uns anos para os outros sem precisarem de ser lavadas. Cheira aos cheiros naturais dos homens e da terra. Traz um bastão. É o chefe, o homem-bom.
O meu menino aprendeu a reconhecê-lo porque canta e dança a pilhas, ainda vestido com seus fatos brejeiros de quem um dia teve a veleidade de ganhar dinheiro com a coca-cola. Mas, a partir de hoje, serei eu, espécie de fada madrinha, um dos seres encantados que lhe ensinarão a reconhecê-lo por outros modos, outros sonhos.
É hora de recomeçar uma luta de paz e humanidade, pelo Miguel e todos os filhos que hão-de vir.
Vou, então, começar por querer nada.
A seguir quero não precisar de nada.
Depois quero dar tudo do que está dentro de mim e se multiplica.
Finalmente, quero ser etérea, estar em lugar nenhum e em toda a parte, para que todos os meus filhos saibam onde me encontrar quando lhes parecer que me perderam.
A este estado de coisas faz falta alguma música.
Sei que tendo só um nome, que, para já, umas vezes é Mãe, outras é Isabel, não caí em sorte aos meus três filhos de sangue e mais aos meus restantes filhos de adopção. Isso não me impede de lhes pedir, a todos eles e só a quem assim se considere, que me ofereçam, cada um, um (ou mais) CD(s) com as músicas de que eles gostam e que gostavam que eu ouvisse. Esses CDs têm que ser gravados pelos ofertantes e devem ter um cunho que não se compadece com o pai natal vestido de vermelho.
Esses CDs servirão para eu ouvir todos os dias os meus filhos, mesmo quando me parece que estão longe. E, mais tarde, servirão para deixar em testamento a todos os netos que os meus filhos me derem, incluindo as minhas princesas Eva e Mariana.
Isabel

1 comentário:

Anti_Coiso disse...

Caraças pah, já um gajo não pode ler um post sem se emocionar...