Pai Natal,
Não sei porque é que a tua prima natureza me fez assim, mas uma das minhas certezas é que não mereço prendas. Que aborrecida que eu sou!
De qualquer modo, se pensares o contrário, envio-te então uma opinião para aliviar aquele bolso do casaco, o do lado direito, chamado Ad-ulto:
Gostaria de ter uns headphones, para não brigar com ninguém quando me apetece ouvir música, como tu me tens recomendado. Sabes, descobri que a música faz parte da partícula “H” da essência dos seres. E lamentava-me hoje de não lhe dar a importância que merece, assim como não a dou aos livros, ao vinho, à comida, ao descanso, aos amigos, ao mar, ao amor, a um dia de chuva, a um gesto carinhoso, a…, a…,a….
Agora uma difícil: No outro dia, comi uma “raclette” em casa de uma amiga. A dita comerzaina, penso que de origem francesa ou suíça, é constituída por batatas cozidas, carnes frias, legumes cruz e cozidos, fruta e, finalmente, queijo fundido, o qual se derrete num instrumento ligado à corrente, do mesmo modo chamado “raclette”. Assim parece nojento, mas é um verdadeiro pitéu. Então, a segunda alternativa é uma “raclette”, para dar esse pitéu aos meus amigos. Tu, é claro, estás convidado!
Para os bolsos do lado esquerdo do casaco, cheios de seres etéreos, que se chamam cri-an-ças, gostaria que lá metesses os seguintes desejos:
Que em 2010 se encontrasse a Madalena dos olhos com pinta. Tenho tentado ajudar, mas pouco posso fazer e estou triste por isso. Pede às cri-an-ças que o desejem muito, pois só elas lá podem chegar rapidamente, ao sítio onde ela se encontra. É que, como tu melhor do que ninguém o sabe, as cri-an-ças conhecem todos os pequenos esconderijos da vida, até que nós lhes vendamos os sentidos.
E
Uma paixão, qualquer que ela seja, para o bom gigante Daniel, para eu o ver rir todos os dias e todos os dias querer respirar a luz e saborear o cheiro a flores.
Uma paz, um conforto, para a alma inquieta da minha filha, para que ela possa criar e recriar, com gosto e arte, a sua vida e a dos que a amam.
Um extraordinário presente, sei lá, um botão de rosa fulgurante, uma réstia de cheiro a pele macia, uns cabelos louros, uns olhos bem abertos, um riso aluado, um presente, um presente, para os meus filhos João e Inês.
Uma reincarnação de Chaplin generoso e canhestro, para o meu herói da banda desenhada, Pedro de seu nome, de caracóis nos astros e coração ingénuo.
Para o Bruno, um transporte público que se não perca, um comboio que se apanhe em todos os apeadeiros, uma mão para o ajudar a subir, uma mão, uma mão.
Por isso, Pai Natal, não te esqueças que tais dádivas, são também para mim, porque eu bebo na felicidade das minhas cri-an-ças, todos os dias.
I.
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